Conrado de Assis Ruiz e a Harley-Davidson

Médico do Trabalho

Vocais

Guitarra e violão

Teclados (programação)

E agora...

Web designer!

Chucky!


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Se eu tiver que explicar...

A Harley-Davidson é realmente especial. Só será capaz de entender sua essência quem, de alguma forma, for também especial. É por isto que tantas expressões já foram cunhadas para traduzir esta sensação. A grande máquina da liberdade, a “Number One”, a lenda, a águia americana. Nem todas elas, juntas, chegariam a explicar. Mesmo assim, vale a pena tentar.

Há muito tempo, no final dos anos cinqüenta, ainda na primeira década de vida, tive meu primeiro contato com a Harley. Eram histórias contadas por meu pai, falando de malabarismos e acidentes, e algumas poucas fotos. A partir delas surgia uma imagem grandiosa em minha mente. Eu sentia um tom diferente na voz daquele homem, um aviador tão acostumado às emoções, e parecia, aos meus ouvidos de menino, que esta era uma emoção diferente.

Desde então, quando eu brincava, meus dedos cavalgavam qualquer graveto, caixa de fósforos, ou peça de dominó disponível. Na minha imaginação, foram estas as minhas primeiras Harley. Alguns anos mais tarde, já adolescente, folheava revistas trazidas por meu pai de suas viagens ao exterior, procurando anúncios de minha paixão crescente. Eu me lembro até hoje do encantamento quando vi, em uma página central, como se fosse uma famosa manequim (era assim que se chamavam as modelos de então), uma Hidra Glide, de um verde escuro e metálico, com banco branco, bolsas, manetes e borrachas brancas. Parecia um sonho. Eu quase chegava a ouvir o ronco de seu motor. Minha primeira “centerfold”.

Às vezes, de tanta saudade, ia ao centro de São Paulo, à chamada “boca das motocicletas”, apenas para ver alguma Harley. Já conhecia aquela Flathead azul do Carmona, com side-car de madeira, que parecia a carroceria de um caminhão. Olhava da calçada a vitrine do Edgard Soares. Ficava animado ao vê-lo, aquele senhor tão pequeno, pilotando as gigantes de meus sonhos. Se ele conseguia, eu logo conseguiria.

De fato, já aos 10 anos de idade meu pai me fazia sentir pela primeira vez a sensação de pilotar uma moto. Era uma Mondial, 50 cilindradas, vermelha como convém, e com câmbio de três marchas no manete da esquerda, estilo Lambreta. Estas experiências terminaram abruptamente, por força dos protestos incontornáveis de minha mãe. Mal sabia ela, era tarde demais.

Alguns anos depois surgiram em São Paulo lojas que alugavam motos japonesas, tipo Honda 50, 65, ou até 90 cilindradas. Era possível alimentar a paixão, com pequenas motos, de escapamento aberto, os primeiros quilômetros de uma longa estrada. Não eram exatamente o que se poderia chamar de um sonho, mas era o que estava ao alcance. Obviamente, não chegaram a justificar uma paixão maior, que ficou latente por mais alguns anos. Havia o “Vigilante Rodoviário”, os batedores da Polícia Militar e do Exército, e até o Marlon Brando (que perdeu a chance de imortalizar sua imagem pilotando uma Harley), uma coleção de imagens colecionadas na memória de garoto, que nunca seriam esquecidas.

Em 1969 eu tinha 17 anos. Cabelos longos, a rebeldia típica da idade, o rock&roll como trilha sonora. Neste ano, que se tornou tão especial para mim, algo muito importante nascia. Aconteceu Woodstock, mostrando a força reativa de uma geração que aprendia a questionar, e aconteceu um filme emblemático: Easyrider. Logo nas primeiras cenas surgem dois símbolos definitivos: duas “choppers”, máquinas pessoais, com identidade e personalidade própria. Eram como o cavalo do cow-boy, com nome, imagem, e comportamento individualizados. Nada mais seria igual, nunca mais. A Harley assumia a parceria com seu dono, ficava cada vez mais única, e impossível de ser copiada. Na década seguinte, a própria fábrica perceberia a importância do fato, e incorporaria a filosofia de seus clientes, lançando os modelos semelhantes às “chopped Harleys” que eram criadas nas ruas.

Apenas em 1973 comprei minha primeira Harley. Uma Hydra Glide, 1951, com câmbio manual de quatro marchas, desmontada, como era comum na época. Numa noite especial, após longas madrugadas de mecânica, liguei a ignição, atrasei o ponto no manete da esquerda, rodei o acelerador na direita, e pedalei pela primeira vez na vida uma 1200. Aquele som ecoou para sempre no universo.

Desde então, a águia carrega em seu vôo minha vida e meu coração. Duas “choppers”, uma Electra-Glide, uma Sportster, e as atuais Springer Softail e Electra-Glide seguiram aquela primeira Harley. Cada uma teve suas próprias histórias.

Indiferente à época e ao modelo, uma característica das Harley se destaca sempre: o ronco de seu motor em V. Sempre houve algo de místico em torno destes motores. Não seria possível, naqueles distantes anos, imaginar que ele seria hoje uma referência, símbolo de uma força única, desejada até por quem nada sabe de sua história.

Uma Harley defende seu terreno, onde reina absoluta, e devora a distância como um navio, imponente e grandiosa. Cortando o silêncio da noite, ouço às vezes seu ronco grave e poderoso, acelerando ao longe, numa estrada qualquer. Com o vento frio no rosto, o caminho iluminado por seus faróis, assim minha alma segue também, rumo ao seu próprio destino. É deste modo que quero ir, seja para onde for.

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